5.11.13

Amai-vos uns aos loucos

Nunca um Outono teve um sabor assim, tão a primavera, amargo e doce, com brisas e chuvas poucas. Nunca o Inverno se avizinhou tão quente, de sol em avenidas e verão no corpo. 
Resta-me acalmar os medos, aceitar a primeira confusão, arrumar buracos negros onde tudo a qualquer momento se encontra e preparar as mãos para não pararem de receber crentes.
Oferece-se a mim esta cidade, com paisagem ampla, uma casa e uma janela, com vista para tudo e floreiras a serem plantadas. Habituam-se aos pés as linhas escuras, ao olhar as calçadas e dias de sossego e cordas após dias de muita gente. Redesenham-se rotinas. Melhores, mais proveitosas.
E o meu coração, descompassado, soletra o primeiro mandamento, enquanto a mente se entrega a uma organização cada dia mais precisa. 
Resta-me comandar o tempo, conhecer o espaço. Cabe-me viver aos poucos, com um sorriso que por pouco não cabe em mim.

23.10.13

Pai

Nos primeiros anos, vínhamos todos,  no dia marcado, com flores. Falávamos, chorávamos, tudo sincero e sentido. Verdade.
Depois, um a um, indo e regressando, fomos abandonando o barco, remando a outras terras. 
Entretanto, eu voltei, e já há dois anos que vou, uns dias antes, sozinha, ver-te, limpar-te a morada... desta vez nem a mãe veio no fim deixar-te flores... vim cedo demais, antes de viajar, e ela virá noutro dia, mais próximo, como manda a tradição, pelo menos a nossa.
Gosto disto, deste sossego, de varrer com afinco enquanto te falo em silêncio. Peço-te pequenas ajudas e orientações.
Já não estranho a tua falta, vivi mais tempo com ela do que contigo. Com o tempo foste-te tornando numa memória prezada, uma herança emocional com valores passados, um pouquinho de dor e saudades. Muitas, mas saudades de uma pessoa quase ficcional, um personagem composto meio pelas histórias, meio pelas memórias de uma criança que não larga. Os cheiros, o do teu cachimbo, o sentido de um colo que tive. As imagens,  em movimento cada vez mais difusas e a tua cara que relembro pelas fotografias. A voz que vou repescar de tempos a tempos à trilha onde brevemente andaste. 
Um elemento emocional, num conto do que seria, que seria assim tudo tão diferente. 
Seria?
Não sei se te orgulhas de mim, as dúvidas que disso sinto quando te visito indicam-me que nunca me senti tão perdida. Ou talvez já, mas nunca é tanto como o presente, não é?
As visitas que te faço de ano a ano são um bom barómetro de rumo e comportamento.
Pesam-me as falhas, sempre do mesmo, do respeito, do ânimo e da constância. Talvez também da complacência. 
Resta-me andar, nestes dias, para a frente. Esperar que o caminho me encontre a mim se eu assim não o encontro. Que me indique o que tenho que abandonar e retomar.
Mas resta-me muito.
Deixaste-me, a mim e aos nós que são sempre os mesmos, muito amor. Não nos deixastes sós.
E este mundo, todos os dias, traz um pouco de trabalhos e um pouco de prazer.

18.10.13

Chega

Chega a hora de tudo se cumprir. O prometido e o merecido. Das mãos terem ocupação certa que dê ao corpo os seus luxos e saberes. Da boca ter um travo doce, mesmo nestes dias amargos. Da força se provar em actos e dar descanso aos desesperos. Chega a hora das flores e sobremesas. 
Chega de paciência, de passividade. 
Chega a hora de receber, dar, dos beijos em liberdade. 
É o tempo do coração que é três ter as iniciais em relevo e dos 0.14159265359... em todo o seu infinito continuarem com o vaivém de nomes, olhos e dias, espaço astral.
O dia em que a hortelã-pimenta não está mais só no canteiro, mas desce ao baixo-ventre, fresco,
em que a pimenta raia dos olhos para os braços em tarefas bem pensadas e a canela continua a cobrir a pele, ensolarada. 
Chega, chegam todos os sonhos e sabores. Acabar com confusões, dar os termos revelados. Dias heliotrópicos em lugares que só se dizem inverno. Acções refulgentes em dias que se anunciam repouso. Altura de trocar as voltas. Das voltas serem novas, ascendentes... O dia de descer será outro. Agora, este dia que é um mês, este mês que é um ano, este ano que são muitos, é feliz. 
Porque assim tem que ser. Contra tudo o que dizem, contra os males que anunciam, é hora de viver, com tudo o que ser quer. O que ser quer não é muito, não é pouco, é tudo a que se tem direito. A barriga cheia, o peito iluminado, os braços preenchidos, os lábios em sempre beijo e os pés a encontrarem o lugar onde se promete o presente.
Acabaram-se as promessas e as esperanças. Tudo se está a cumprir. Sem vais, seria, sem adiar mais.
Sem ninguém que contradiga. A conquista de tudo o que tem que ser. 
Com a coragem de saber que os muros caiem, as distâncias matam-se, e o futuro é para se fazer.
Não há mais como proibir, empecilhar, tornar mais duro. Contra quem tiver que ser. 
Chega.
O dia.
Ser digno é ser completo.

22.7.13

São flores, senhores

As mãos em cima em renovado tratamento, respirar circular mais lento e um crescendo a descer a cada três batidas. Na cabeça, pede um cumprir, na garganta que se liberte qualquer engasgar, no coração, sem medo, sossego, à barriga dá-se satisfação, no sexo, não se dá, recebe-se, poder. 
A descoberta de um novo toque, quase sem pousar, que muito se sente, as pontas dos dedos de encontro à pele num caminhar leve, contínuo, de arrepiar. E de novo as mãos estendidas, o peito aberto, boca em riste, mas silêncio, sem espinha crispada, à espera tranquila de corpos para trocar.
Uma nova disciplina, mais um calçado para o caminho tremendo e redescobrindo o domínio, de forma assertiva e doce e todos os paralelismos entre o que é pintado de negro ou esfregado de luz, esperando carne para colocar, metodicamente, o pé. Indagando quais os rostos que receberão os beijos, as coxas que serão fustigadas, os membros que receberão óleos ou coleiras, quem sabe à vez.
As mesmas vontades, outros objectos de desejo. E a tranquilidade sabendo que não há nada que fique por experimentar. E por momentos do dia, rosas, águas ou peixes, beijos no olhar. A lua cheia, com tanto que traz à tona, mas já não deixando anunciar. E o uivo, contido até que se queira, adivinhando que de quando em quando abrir a boca é já ou apenas caçar.
Cheira a incenso por onde se anda, a templos sagrados que são braços e peitos, a suor e suavidade, a promessas e planos.
Sentindo, portando, o que será, será.
Sem nunca o coração deixar de ser um jardim.

11.6.13

7.5.13

As vestes rasgadas de Ariadne

Uma súcubo também sente e a parte touro também sonha. 
Recorto no corpo os beijos que um me deu, a pegada com que o outro me puxou, a laranja descascada com que um dia amanheceu. Reconhecem-se as carências, os gestos pequenos que criam frágeis pontes por cima das estradas. Arrumam-se os amantes, a cada seu lugar, sem saber onde se expira a constante tesão, com dúvida, cada dia com mais resposta, se se quer perder o coração ou o tempo que resta para tudo se resolver. A consciência do risco e do que falta onde. E um corpo com um tempo de vazão cada dia mais contado. Sem deixar confundir o outro com masturbação. A cada ser a sua honra, mas dias e gente há com menos preceito. A falta de paciência para fazer número e indecência de não resistir. Mas é um corpo tão grande a querer tantas mãos. Ou mãos que não saiam, com o desejo tão grande como o mundo é desejado por ela. Segura-se a boca, trava-se a língua no corpo a saber que a partilha com muitos não é, tantas vezes, a partilha de ninguém. E a cabeça, antes nunca preterida, o corpo, que agora alimenta e alumia, o coração que dia a dia se fecha. Ou passa de portões  grandes a labirinto. Como se finalmente fosse hora de apenas uns poucos chegarem ao centro e se soubesse cada vez mais aguardar os novelos, derrotando o monstro e desposando a beleza. E tudo um trabalho tão seu, numa mitologia criada e largada de quatro, enquanto a cada encontro vem pelo menos um gozo e um suspiro. De um os pelos e o cheiro, de outro a forma como foi fodida. Sinais entrelaçados em listas de dores e prazeres, como se cada encontro tivesse senhas para acordar a besta ou a rainha, mas ainda nenhum a mulher e a menina. Como se pode completar aquilo que não se vê, não vive completo? Como se cumpre um coração sem se cumprir a cabeça? E que se espera de um corpo sem função? Espera. E cada dia se constrói e destrói uma obra de Creta, se desleixam ou preparam os portos, onde podem chegar veleiros, mas de onde mais cedo têm que sair navios. 
Uma primavera que tarda de tanto se semear devagarinho, a pergunta se agora se aprendeu com um e por hora se será este coração que ficou frio ou se só tudo nascerá quando se arar a cabeça tirando a pedra que não serve, usando-a para o lugar dos perdidos. Nos momentos em que nada importa e tudo se concretiza. Cumprindo funções para depois poder dar os fios do vestido. Sabendo que tudo será apenas no dia em que tiver as velas brancas para os navios.

22.4.13

Coração de Rainha

Borbulha ainda entre este coração e os pulmões, numa intensidade mais tranquila que desmedida, a palavra liberdade, uma declaração de independência incompreendida, que mais que um não querer significa um amar muito. 
Vivem, neste espaço infinito, conceitos novos ou relembrados, que se colaram às válvulas como se lá sempre estivessem estado, messiânicos e de porta em porta, que saem pela ligação directa coração boca para tantas vezes serem mal interpretados e outras vezes assustarem quem já sabe muito. 
Acordam, neste espaço livre circulação, a cada dia com o monte onde vive, forças novas. Desperta vulnerável, às vezes triste e cansado, cobrindo-se das cores de cada momento limítrofe do firmamento. Reconhecido, desmembrado, olhado ao espelho, cosido e inteirado, coração de não tão rápida regeneração quanto queria, mas que se vê inteiro e pronto e pode a cada momento.
Coração que não guarda mágoa mas aprende, que não quer prender nem ser preso, deixando as grilhetas para as mãos e pés em dias de tesão negra.
Coração já não tirano, com cabeça ceptro de guia a saber o que não quer e o que deseja. Coração lambido que não insiste nas cicatrizes em cima de cicatrizes, que vai passando o dedo no relevo da obra e observa o tecido mole a curar e a respiga das estações pelas quais se ordena. Coração que quer primavera, mas já nem tanto ou tão sôfrego e sente com calma o sol a pousar na terra a cada ciclo. De quando em quando febril, coração de pastora, entregue aconchegado entre as mãos em dez dias, com contracção amor humor que diz: "são (apenas) rosas, senhor(es)".
Coração com asas de pássaro e um abecedário inteiro a se entregar, escolhendo as poucas letras para quem seria o muito que mais ninguém recebe. Solto e há procura de poiso, num jogo de stop com a palavra certa a cada amante. A cada um sabendo o que se empresta.
Coração que pena baixinho pelo que não lhe pertence de quando em quando ser de alguém. 
Coração viagem, que pula em manchas gráficas e respinga tinta e não sangue, cujas dores de pele lhe dão rijeza para esperar. Que acima de qualquer dor, gosta é muito de voar.
Coração corpo, com espaço extenso para brincar de dar, com ancas que descem do trono para se alimentarem, pulsões rítmicas e voltas a casa de pele alimentada e suada.
Coração que olha.
Coração que faz.
Coração que espera.