6.9.16

Talvez não te tenha dito que escrevo cartas de amor.
No meio de tanta pequena partilha nem sei se deslindei mais essa. Nem sei se lembro bem tudo o que conteve o tempo breve que passei contigo. Leve, lindo e solto.
Mas hoje olho para a minha cama e tenho mais que raposas, ficou um rasto de pássaro e o desenho do teu corpo aqui marcado, junto com a tua mão no meu joelho.
Deixei-me apaixonar, apenas isso e é tão tranquilo, mesmo com dúvidas de menina habituada tão só a uma masculinidade europeia silenciada, sem tentar encontrar sentido mas deliciada com tanto mel que da e para a tua boca linda escorreu. Com a tua cicatriz ainda gravada nos meus dedos, admirada nas tuas histórias e cúmplice em sentidos que em outros percursos também tomei.
Sei que és um príncipe, e não baby, nunca serei princesa... Nos dias bons sou rainha. Mas é a tua cabeça que tem coroa e o teu corpo vai tendo e sendo manto, por horas apenas. Suspeito que sejas também andorinha.

Voa, então, Príncipe Andorinha, cruza todos esses mares e, se quiseres e quando quiseres, volta para mais conversa, afecto e as flores que nascerem.


Mas vai e volta claro e transparente para todo lado. Sem esquecer de usar todas as palavras. Para honrares o coração que tens, e os pedacinhos que vais recolhendo.
Com amor e coragem.



15.6.16

em dois compassos (um desejo e um recado)

preciso que se reescreva a promiscuidade.
de não continuar retalhada entre os romances que li e a liberdade que me cose.
canso-me das narrativas que me prendem à leviana ou marialva condenada ao castigo ou à salvação da monogamia aborrecida.
não me preenche esta norma que cinge os meus amores a lugares onde não me esventro. que os invalidade por não haver como os dizer.
enquanto eu mesma me desfaço das linhas que me condenam ao medo que o amor me torne menos e o sexo mais mulher.
quero desendeusar este pânico que enfrento no risco de ser mais um cliché. valer a audacidade sem por isso dar menos e menos receber.

( as vezes, contigo, assusta-me amolecer. ficar carente, presa a uma co-dependência que me vai fazer desvanecer. onde estão as novas histórias que desfeminilizam o amor, que tiram os anos da cultura e deixam de me por a jeito de tornar mulherzinha, de me desmerecer? 
quero celebrar para além da aceitação... aceitação, corrida, partida, nunca o ganho. A meta sempre uns metros à frente, enquanto festejo o andar.
Senão onde encaixo a tranquilidade, o carinho, a tesão? )

 preciso que promiscuidade revele mais do cuidado com que se escreve. ressignificar fora do assignado.

é preciso ocupar o amor
e dar-lhe uma casa sem paredes

27.4.16

amor transoceânico

alguém do outro lado do mundo gosta de mim...
alguém do outro lado do mundo me conquista...
e entre voos e as horas, só contam as que se estão e ano e meio são poucos dias... tão bom contar o tempo assim. um tempo espaço de encaixe específico, nosso, da cama que acusas desarrumar, conversa boa e esse cheiro, que hoje vou ter no corpo, que tu hoje suarás de mim. desprendido. com os nossos limites de carinho e o teu sorriso enquanto dizes tão bom...
gosto deste tempo suspenso, deste contar diferente. desta intimidade arrumada na distância que de quando em quando, irremediável e felizmente, nos aproxima.
e deste entendimento profundo do que se quer e o que se sente, contido em dias e profundo. suspenso e permanente. intimo de pele, espaço e pelo tempo. 
porque também isto há que comunicar. na despedida que avizinha novo encontro em 15. como se os anos fossem horas, porque tudo é sabido como um até já.


19.11.14

Doce:

Entre o coração que amplo sente e a geografia marcada do teu ventre.
Doce no sorriso nunca travado e no abraço não medido, nem distâncias, outros valores, no travo fino da voz e das palavras companheiras.
Doce eu nos teus braços e doce a imoralidade consentida do teus beijos.
Doce estás ao nosso lado e continuas a caminhada, às vezes dura, outra compensadora, mas tu... sempre doce.

Parabéns, doce *

24.9.14

Ao meu novo amor (carta de amor grande, pequenina)

Não sei se duraremos até ao fim de um caderno, de uma folha, nem adivinho o tempo e volume da nossa história.
Sei que me quero assim, contigo, e que a ti, a ti te quero bem.
Estar contigo é cuidar e ser cuidada, é um caminhar juntos e sonhos partilhados, é deixar-me brilhar no orgulho que sentes por mim e crescer, enquanto tu cresces também e tão bem.
Contigo não perco asas.
E, sem manchar os passados, relembrando que entre histórias não há comparações, sinto e suspeito que em nenhum outro momento dei mãos, corpo e coração tão completamente recebida e em tantas dimensões aceite e que não lembro sentir tão puro êxtase como nos teus braços, nem tanta tesão mútua mergulhado no suor de dois corpos.
Não quero perder o fio a este romance, nem encontrar a ultima página. Quero continuar, sempre, avisando o mundo que a nós, bem-aventurados, a sorte protege, audazes que nos somos a amar. 
Da tua,
Maria Loba,
23-09-2014

5.11.13

Amai-vos uns aos loucos

Nunca um Outono teve um sabor assim, tão a primavera, amargo e doce, com brisas e chuvas poucas. Nunca o Inverno se avizinhou tão quente, de sol em avenidas e verão no corpo. 
Resta-me acalmar os medos, aceitar a primeira confusão, arrumar buracos negros onde tudo a qualquer momento se encontra e preparar as mãos para não pararem de receber crentes.
Oferece-se a mim esta cidade, com paisagem ampla, uma casa e uma janela, com vista para tudo e floreiras a serem plantadas. Habituam-se aos pés as linhas escuras, ao olhar as calçadas e dias de sossego e cordas após dias de muita gente. Redesenham-se rotinas. Melhores, mais proveitosas.
E o meu coração, descompassado, soletra o primeiro mandamento, enquanto a mente se entrega a uma organização cada dia mais precisa. 
Resta-me comandar o tempo, conhecer o espaço. Cabe-me viver aos poucos, com um sorriso que por pouco não cabe em mim.

23.10.13

Pai

Nos primeiros anos, vínhamos todos,  no dia marcado, com flores. Falávamos, chorávamos, tudo sincero e sentido. Verdade.
Depois, um a um, indo e regressando, fomos abandonando o barco, remando a outras terras. 
Entretanto, eu voltei, e já há dois anos que vou, uns dias antes, sozinha, ver-te, limpar-te a morada... desta vez nem a mãe veio no fim deixar-te flores... vim cedo demais, antes de viajar, e ela virá noutro dia, mais próximo, como manda a tradição, pelo menos a nossa.
Gosto disto, deste sossego, de varrer com afinco enquanto te falo em silêncio. Peço-te pequenas ajudas e orientações.
Já não estranho a tua falta, vivi mais tempo com ela do que contigo. Com o tempo foste-te tornando numa memória prezada, uma herança emocional com valores passados, um pouquinho de dor e saudades. Muitas, mas saudades de uma pessoa quase ficcional, um personagem composto meio pelas histórias, meio pelas memórias de uma criança que não larga. Os cheiros, o do teu cachimbo, o sentido de um colo que tive. As imagens,  em movimento cada vez mais difusas e a tua cara que relembro pelas fotografias. A voz que vou repescar de tempos a tempos à trilha onde brevemente andaste. 
Um elemento emocional, num conto do que seria, que seria assim tudo tão diferente. 
Seria?
Não sei se te orgulhas de mim, as dúvidas que disso sinto quando te visito indicam-me que nunca me senti tão perdida. Ou talvez já, mas nunca é tanto como o presente, não é?
As visitas que te faço de ano a ano são um bom barómetro de rumo e comportamento.
Pesam-me as falhas, sempre do mesmo, do respeito, do ânimo e da constância. Talvez também da complacência. 
Resta-me andar, nestes dias, para a frente. Esperar que o caminho me encontre a mim se eu assim não o encontro. Que me indique o que tenho que abandonar e retomar.
Mas resta-me muito.
Deixaste-me, a mim e aos nós que são sempre os mesmos, muito amor. Não nos deixastes sós.
E este mundo, todos os dias, traz um pouco de trabalhos e um pouco de prazer.

18.10.13

Chega

Chega a hora de tudo se cumprir. O prometido e o merecido. Das mãos terem ocupação certa que dê ao corpo os seus luxos e saberes. Da boca ter um travo doce, mesmo nestes dias amargos. Da força se provar em actos e dar descanso aos desesperos. Chega a hora das flores e sobremesas. 
Chega de paciência, de passividade. 
Chega a hora de receber, dar, dos beijos em liberdade. 
É o tempo do coração que é três ter as iniciais em relevo e dos 0.14159265359... em todo o seu infinito continuarem com o vaivém de nomes, olhos e dias, espaço astral.
O dia em que a hortelã-pimenta não está mais só no canteiro, mas desce ao baixo-ventre, fresco,
em que a pimenta raia dos olhos para os braços em tarefas bem pensadas e a canela continua a cobrir a pele, ensolarada. 
Chega, chegam todos os sonhos e sabores. Acabar com confusões, dar os termos revelados. Dias heliotrópicos em lugares que só se dizem inverno. Acções refulgentes em dias que se anunciam repouso. Altura de trocar as voltas. Das voltas serem novas, ascendentes... O dia de descer será outro. Agora, este dia que é um mês, este mês que é um ano, este ano que são muitos, é feliz. 
Porque assim tem que ser. Contra tudo o que dizem, contra os males que anunciam, é hora de viver, com tudo o que ser quer. O que ser quer não é muito, não é pouco, é tudo a que se tem direito. A barriga cheia, o peito iluminado, os braços preenchidos, os lábios em sempre beijo e os pés a encontrarem o lugar onde se promete o presente.
Acabaram-se as promessas e as esperanças. Tudo se está a cumprir. Sem vais, seria, sem adiar mais.
Sem ninguém que contradiga. A conquista de tudo o que tem que ser. 
Com a coragem de saber que os muros caiem, as distâncias matam-se, e o futuro é para se fazer.
Não há mais como proibir, empecilhar, tornar mais duro. Contra quem tiver que ser. 
Chega.
O dia.
Ser digno é ser completo.

22.7.13

São flores, senhores

As mãos em cima em renovado tratamento, respirar circular mais lento e um crescendo a descer a cada três batidas. Na cabeça, pede um cumprir, na garganta que se liberte qualquer engasgar, no coração, sem medo, sossego, à barriga dá-se satisfação, no sexo, não se dá, recebe-se, poder. 
A descoberta de um novo toque, quase sem pousar, que muito se sente, as pontas dos dedos de encontro à pele num caminhar leve, contínuo, de arrepiar. E de novo as mãos estendidas, o peito aberto, boca em riste, mas silêncio, sem espinha crispada, à espera tranquila de corpos para trocar.
Uma nova disciplina, mais um calçado para o caminho tremendo e redescobrindo o domínio, de forma assertiva e doce e todos os paralelismos entre o que é pintado de negro ou esfregado de luz, esperando carne para colocar, metodicamente, o pé. Indagando quais os rostos que receberão os beijos, as coxas que serão fustigadas, os membros que receberão óleos ou coleiras, quem sabe à vez.
As mesmas vontades, outros objectos de desejo. E a tranquilidade sabendo que não há nada que fique por experimentar. E por momentos do dia, rosas, águas ou peixes, beijos no olhar. A lua cheia, com tanto que traz à tona, mas já não deixando anunciar. E o uivo, contido até que se queira, adivinhando que de quando em quando abrir a boca é já ou apenas caçar.
Cheira a incenso por onde se anda, a templos sagrados que são braços e peitos, a suor e suavidade, a promessas e planos.
Sentindo, portando, o que será, será.
Sem nunca o coração deixar de ser um jardim.

11.6.13

7.5.13

As vestes rasgadas de Ariadne

Uma súcubo também sente e a parte touro também sonha. 
Recorto no corpo os beijos que um me deu, a pegada com que o outro me puxou, a laranja descascada com que um dia amanheceu. Reconhecem-se as carências, os gestos pequenos que criam frágeis pontes por cima das estradas. Arrumam-se os amantes, a cada seu lugar, sem saber onde se expira a constante tesão, com dúvida, cada dia com mais resposta, se se quer perder o coração ou o tempo que resta para tudo se resolver. A consciência do risco e do que falta onde. E um corpo com um tempo de vazão cada dia mais contado. Sem deixar confundir o outro com masturbação. A cada ser a sua honra, mas dias e gente há com menos preceito. A falta de paciência para fazer número e indecência de não resistir. Mas é um corpo tão grande a querer tantas mãos. Ou mãos que não saiam, com o desejo tão grande como o mundo é desejado por ela. Segura-se a boca, trava-se a língua no corpo a saber que a partilha com muitos não é, tantas vezes, a partilha de ninguém. E a cabeça, antes nunca preterida, o corpo, que agora alimenta e alumia, o coração que dia a dia se fecha. Ou passa de portões  grandes a labirinto. Como se finalmente fosse hora de apenas uns poucos chegarem ao centro e se soubesse cada vez mais aguardar os novelos, derrotando o monstro e desposando a beleza. E tudo um trabalho tão seu, numa mitologia criada e largada de quatro, enquanto a cada encontro vem pelo menos um gozo e um suspiro. De um os pelos e o cheiro, de outro a forma como foi fodida. Sinais entrelaçados em listas de dores e prazeres, como se cada encontro tivesse senhas para acordar a besta ou a rainha, mas ainda nenhum a mulher e a menina. Como se pode completar aquilo que não se vê, não vive completo? Como se cumpre um coração sem se cumprir a cabeça? E que se espera de um corpo sem função? Espera. E cada dia se constrói e destrói uma obra de Creta, se desleixam ou preparam os portos, onde podem chegar veleiros, mas de onde mais cedo têm que sair navios. 
Uma primavera que tarda de tanto se semear devagarinho, a pergunta se agora se aprendeu com um e por hora se será este coração que ficou frio ou se só tudo nascerá quando se arar a cabeça tirando a pedra que não serve, usando-a para o lugar dos perdidos. Nos momentos em que nada importa e tudo se concretiza. Cumprindo funções para depois poder dar os fios do vestido. Sabendo que tudo será apenas no dia em que tiver as velas brancas para os navios.

22.4.13

Coração de Rainha

Borbulha ainda entre este coração e os pulmões, numa intensidade mais tranquila que desmedida, a palavra liberdade, uma declaração de independência incompreendida, que mais que um não querer significa um amar muito. 
Vivem, neste espaço infinito, conceitos novos ou relembrados, que se colaram às válvulas como se lá sempre estivessem estado, messiânicos e de porta em porta, que saem pela ligação directa coração boca para tantas vezes serem mal interpretados e outras vezes assustarem quem já sabe muito. 
Acordam, neste espaço livre circulação, a cada dia com o monte onde vive, forças novas. Desperta vulnerável, às vezes triste e cansado, cobrindo-se das cores de cada momento limítrofe do firmamento. Reconhecido, desmembrado, olhado ao espelho, cosido e inteirado, coração de não tão rápida regeneração quanto queria, mas que se vê inteiro e pronto e pode a cada momento.
Coração que não guarda mágoa mas aprende, que não quer prender nem ser preso, deixando as grilhetas para as mãos e pés em dias de tesão negra.
Coração já não tirano, com cabeça ceptro de guia a saber o que não quer e o que deseja. Coração lambido que não insiste nas cicatrizes em cima de cicatrizes, que vai passando o dedo no relevo da obra e observa o tecido mole a curar e a respiga das estações pelas quais se ordena. Coração que quer primavera, mas já nem tanto ou tão sôfrego e sente com calma o sol a pousar na terra a cada ciclo. De quando em quando febril, coração de pastora, entregue aconchegado entre as mãos em dez dias, com contracção amor humor que diz: "são (apenas) rosas, senhor(es)".
Coração com asas de pássaro e um abecedário inteiro a se entregar, escolhendo as poucas letras para quem seria o muito que mais ninguém recebe. Solto e há procura de poiso, num jogo de stop com a palavra certa a cada amante. A cada um sabendo o que se empresta.
Coração que pena baixinho pelo que não lhe pertence de quando em quando ser de alguém. 
Coração viagem, que pula em manchas gráficas e respinga tinta e não sangue, cujas dores de pele lhe dão rijeza para esperar. Que acima de qualquer dor, gosta é muito de voar.
Coração corpo, com espaço extenso para brincar de dar, com ancas que descem do trono para se alimentarem, pulsões rítmicas e voltas a casa de pele alimentada e suada.
Coração que olha.
Coração que faz.
Coração que espera.

22.11.12

hoje,

há muitos anos, ganhei-te para te perder. Hoje, há muitos anos, comecei o caminho que apenas me poderia trazer longe de ti.

Pode ser que um dia, o caminho se inverta até ao meio que nunca se encontrou.

19.10.12

neste país

Resta-nos o saudosismo e a promessa das lágrimas irem connosco, resta-nos a voz rouca que conta as nossas histórias enquanto ainda temos alguma comida na mesa. Resta-nos partir ou vê-los a ir e dizer que em breve os seguiremos, com a ilusória esperança que tudo voltará a ser como era, ou pior, que tudo será melhor um dia. Restam-nos as paisagens abetanadas e as estradas vindas de um conflito que tarda em eclodir. Os caminhos que nunca aqui vêm ter, os copos cheios e uma convivência triste e forçada. Resta-nos termos de nos aturar assim em jeito manso, já sem visão de mais nada, porque o nosso jardim se tornou prisão. 
Restam-nos as ruas até nos cansarmos de pedir ou eles nos matarem à porrada. Cabe-nos sonhar, com as califórnias, os brasis, com o lá fora que ainda assim dizem que não está melhorzinho, com o dia em que eles caem e vêm outros melhores. Cabe-nos gritar sem ser ouvidos, em dias de sentir que um dia perdemos a voz e nada muda.
Ficamos com panfletos nas mãos, os folhetos de dai-nos pão meu deus todos os dias, com os assuntos apagados e as soluções que eu não tenho, tu também, mas que há quem tenha, te prometo, por aparecer. 
Sobram-nos as mão atadas e os pés sem se poder mexer, num lugar cova sem vida após a morte. Sobra-nos esta casa terminal, sobra-nos a contínua procura da cura. 
E um perguntar se este morrer vai ser ainda de mãos arregaçadas, de quantos mais se vão calar, fugir, desistir dos outros tantos que por aqui ficam, para poder sobreviver.
Sobram-nos sonhos e projectos. Não se sabe é se nos sobra a força para os cumprir. 
Desta tristeza que nos consome sobram, restam, nascem fagulhas. 

Umas hão-de morrer cedo.

Outras hão-de progredir.

(fim de brasa ou fogueira, cada mau dia o determina)

29.8.12

Maria Transmontana

Quem aqui chega admira, contempla e por uns dias respira. Quem aqui fica endurece, de tanta pedra e terra, um endurecer magnânimo, fixo em força de ser si mesmo. Afinal, não somos do mar, não somos corpos fluidos, moles e líquidos. Os mais bonitos são cristais, os puros, granito. E sente-se a terra a crescer-nos nos pés, para dentro, para o vale, como todos os pensamentos. Escorregando do monte olhar para os mais fundos regadios. E perde-se a cabeça no meio de tanto céu e estrelas, amedronta-se-nos a alma de tanto isolamento. E encontram-se um, dois, como nós mas nesta busca tão funda cada um segue o seu freio e o seu rio. A cada um seu risco.
O sorriso abre-se, e os braços estão abertos a quem quiser entrar. O sentimento, esse fica, consentido, a quem se provar, ao que se provar. E, enganados que se abandona o coração, crescem só veredas que servem para o amparar. 
Cheguei cá cheia de ondas, com demasiado vem e vai para uma terra que se quer arada só no tempo certo, mais do que de peito aberto, de coração exposto, desenhado em cada extremidade, ornamentado e demasiado fácil de se roubar. A cada dia reaprendo o que se pode dar de oferta, que os sapos criados vou ter que ser eu a matar, haja força e faca de ponta dupla afiada. A mesma da qual cresci ao lado. 
Desta vez não se partiu o órgão, não quebrou nem ficou estalado. Arranquei o de mão cheia, resoluta, engranitada. Aos poucos a saber a que dou as partes do que restava. A que campo e com que enxada. E ainda com pés de fada, ou asas de besouro fascinada, permito-me rodopiar, mas o essencial, o que lá está, agora merecido e ganhado. Ou a chave certa ou um sagrado pé de cabra.

5.8.12

por causa de b.

O mesmo, com vários nomes, encerrando em cada identidade uma nova história, sabendo-se apenas uma repetição de si mesmo. Nos teus olhos que no fim só viram o amarelo baço e as sombras, na barba rala e grisalha que distinguiu, com a única nitidez da virtude e verdade, todas as formas, pendurada como musaranho cego na perfeição das tuas letras, aprendo. Como me ensinas quando reclamas novas identidades, nacionalidades diversas, em passeios e caminhos que descreves com a certeza de ter lá passado. Tu e os teus outros.  E assim aprendo o duplo de mim mesmo em cada façanha e memória. E vejo-as escritas no coração oco, espaçoso, adornado, com tanta parede diagrama, onde me entre-vejo sempre como a rival de mim mesma. Mesmo a que desenho, branca e angulada (e por momentos lhe invejo a beleza, o encanto que não conheço), a outra de cara mais redonda, a de corpo de atleta e a bailarina. As que dizem que aquele é delas, as que me retiram as possibilidades com outro. Todos os outros são o mesmo. E se aqui não estão é porque o que é meu está nas minhas mãos e nada meu nem tenho com quem rivalizar.
Desdobra-se este dia e noite, entre o sonho, sono, e uma vigília demasiado distante do pensamento para me querer acordada, a mesma mensagem. O finito de contradições que temos que nunca chegará para abarcar uma história. Esta histeria de querer o que não me pertence. Um que era dois e sempre o errado a ouvir a confissão repetida. Já não estou no corredor escadas que facilmente subia e descia, mas no sonho amplo e azul, as palavras, não as mesmas, mas suas duplas. E enquanto continuar nesta vertigem de coragem abrupta e medo de não ser, roo a tristeza, peso mais do que devia, elimino todas as chances de ter ao reencená-las e entrevê-las. Vivo, enceno, mato, os múltiplos duplos, sem precaver qual fica fora do papel ou da cabeça. Sem querer saber. Vai ser sempre uma surpresa.
E entre a nórdica e o mar, entre a viagem e a descida à terra, criam-se novas linhas, novos cruzamentos e tudo será ainda melhor, ou um tanto pior do que o revisto.
A vida não revisita os sonhos, nem repete os desejos e medos. Restam-me as duplicidades, as multiplicidades e novas metáforas de viver. Resta-me a insatisfação, novas marcas prometidas, voos iguais e diferentes, novos limites, vãos mais profundos. Resta-me esperar que o tempo passe, descobrir mais prazer e dor, morder o lábio a cada palmada e derreter-me a cada colo dado. 
insatisfeita, sonhadora, sabendo que não há já vistos, ansiando passaportes e metas cumpridas, mas sem conseguir que os braços parem, que a carne destempere, sem conseguir parar de querer.
a ver o possível contigo, a recontar as palavras e dias de tudo para lhe espremer significado, maior. 
a esperar outro.
Enquanto cura o coração ferida, mordida, picada na mão e me relanço na loucura de acreditar em mais um, bravo. Aplaudo e continuo.
a ser.
ansiar.
a
ansiar.
mais duplos de contos diferentes. mais. tudo.
ou um pouco apenas para saber viver. seria quanto baste por agora, embora saiba que lá vou querer sempre o tudo. quanto posso dar. todos os duplos para a entrega de novas identidades. as completas.

26.7.12

simples (nada mais que o pedido)

Tenho sempre nos dias seguintes o trabalho de me despelar de ti, de te tirar assim, dos poros, da pele onde num instante te entranhas. Tenho por ti, porque assim o precisas. Para mim nada seria mais simples. Sei que nenhum de nós já se tem só à superfície e agrada-me esta harmonia, simples, de que em cada encontro tudo seja tão fluído, fácil. De que os lábios tremam e nos contorçamos de prazer, de que a conversa corra tão bem quanto, entre, durante, a cama. E de que cada vez haja um pouco mais do que não consigo nomear, mas temos. Não lhe chamo magia, nem paixão, nem amor, nem nos considero encanto, é mais um regato de duas fontes, que há de correr até uma arranjar novo desvio.  E entre bons amigos e amantes perfeitos, despreocupo-me, cedo, vivo, sorvo-te e sou sorvida, até ao dia que deixar de ser... porque não será mais simples. Engraçado como tanto fogo, dos dois pavios torcidos, continua, é, a cada noite não dormida, mais água, mais poça, mais charco, onde vivem rãs, pensamentos e peixes. Um estagnado vivo. Parece-te, para mim é, simples.

18.7.12

missiva em claro azul

Quinta volto aí. E imagino logo o convite para um cafézinho. Sabendo a recusa, enceno na minha cabeça o que te diria. De como me sinto perdida e nada está a ser tão perfeito como deveria. De que a cada queda ou alto se torna tão fácil imaginar o teu sorriso. De que me lembro, muito, de tanta cumplicidade e conversa, de tanto carinho, abraço e que por muito que o tempo passe continuará gravado no pescoço o mesmo beijo. De que nunca te esqueço nem quero largar da mão o que sinto e senti e que talvez seja preciso outra grande paixão para esquecer um grande amor. Que sei tudo isto a saber que qualquer futuro seria longe do quereríamos, mais, mas bem mais longe do que esta maria anda de ti faz mais de um ano. 
Contar-te-ia que nada do que me propus cumpri, que me sinto triste e fraca comigo mesmo, mas que nada disso interessa porque sei que sentir-me grande outra vez não mudará o que sinto por ti. Falaria nos sonhos e lembranças, nas histórias que me ocorrem, em como sorrio de mansinho e olhos brilhantes cada vez que lembro o limbo do pudim. Em como me fazes falta de qualquer maneira, em como me faltas tanto como amigo. E íamo-nos rir, muito, quando te dissesse que o quebra-cabeças do comando, com que andamos tanto às voltas era só um problema de suporte, que nunca foi preciso mudar a pilha. E dava-te a mão no momento em que confessasse quantas vezes já parti o coração sem mais nada te dizer, mas a contar sempre com um respeito de homem grande por me ver. Ias-me saber tão diferente em tanta coisa, com tantas marcas novas, que viria apenas uma desaprovação da qual me ia rir de fininho por ainda te conhecer. Havias de me ver igual em tantas outras. Desaprovar o gato, as novas ideias e aventuras de costas e mãos, criticar intensamente as falhas feitas como só quem me amou tanto e tanto esperava o poderia fazer. 
Ias-me ver. E eu, ia te ver. E ia querer abraçar, tocar, perceber se o cheiro seria o mesmo por entre o chá no meio da mesa. E sorrir, muito, por saber que já és de outra ou que de ninguém queres ser, por saber que não és meu há tanto tempo quanto o meio do descarrilar, mas por te ver, por uma parte de ti ainda me ter. E eu te ter, sempre. Sem querer mais nada que um café. A conter as lágrimas de uma felicidade de partilhar mesa e conversa e da dor de tudo já ser tão longe do que foi. Mas ser.
Volto-te a dizer, ninguém me ensinou a desamar. E a ti, ensinaram-te a nunca quebrar as promessas. 
Com quem as queres cumprir é que vais ter sempre que escolher.

15.7.12

coração bailarina torta

O mesmo passo doble, vezes sem conta, sempre numa primeira certeza que desta vez não vou tropeçar. O mesmo tropeço no ar, bobo, sem queda, com graça e no pouso seguinte a conseguir equilibrar. A historia do sorriso, a historia do outro, uns sonhos bem parecidos, um beijo, dois, mais doce, terno e a segurar, o travo de um mordo na boca, a capacidade de suar. Acredita-se no passo maior, em paradoxo vocaliza-se o não acreditar, contradiz-se a beleza da sonhadora ao dizer nunca projectar. 
Porque se quer sempre o tudo no agora. Máxima de coração solto, nunca esperar. 
E os nuncas que se perdem enquanto se continua a tentar... Arranjam-se as mesmas fitas, arranjos e laçarotes do mesmo sítio, encontram-se peças de encaixe tão livre, aumentam-se as visões que se podiam compartilhar. E a dança quebrada que só tu sabes não resultar. 
Coração nómada, pradaria, coração índio, de nariz alto porque nunca se mostra a quebrar. E a busca contínua do primeiro caminhante para a tribo que queres fundar. Podia ser o outro pelo encosto, aquele pelo insólito, ela pelo fascínio, o dos olhos da preguiça, o das palavras que nunca deviam ter sido ditas, este pelo mesmo procurar.
Podiam ser todos e tudo ser perfeito, arrítmico, descoordenado e a cada momento feito,  contemporâneo...
mas ainda não há quem queira caminhar. 
E sem pés valentes, sem gente sem medo de tropeçar, sem bravos abertos, assim não se pode, não se quer bailar.
Pede-se improviso.
e um pouco de arrebatar.
Eu, por enquanto, ainda não perco o sorriso. E esse,  sabe-se ainda que me vai acompanhar.

27.5.12

Maria sem medo

Com uma hora de sono, pouco mais ou pouco menos, os latidos acordam-me, alerta, resoluta, decidida. Revolta na cama levanto, pronta a tratar das portadas que ficaram por cerrar, levanto-me, uma, duas, três vezes. E ao fim de tudo, arrumo o  que fica por tratar, abro a porta a ver porque é o alarido. 
Saio e espera-me um universo de chilrear, um mundo de som e manhã, mal lavado pelos gritos grunhidos, rugidos de carros que sobem monte acima, da noite que passou. 
Saio e entendo.
Aqui de cima tenho o azul ovo do amanhecer. Tenho dias e mitos todos dias, há mesma hora a nascer. Tenho histórias pousadas na subida da minha colina, largada nos cantos que dia inteiro me acompanham.
Aqui de cima saio para ver o sol nascer e sou eu de sempre, sem medos, com muita rua, que não se acanha perante a luz que é, sempre foi, e de quem é, sua. 
Aqui em cima sou sem medo e sou cada dia da cor que se pinta. Escrevo com companhia. 
Aqui em cima estou só e sem nada que me falte. E cada dia descasco a camada deste fruto flor que me faz ir ao que mais intimo há em mim. Aqui em cima, como noutro lado, a embriaguez acontece e nada mais é do que isso, com a mesma facilidade, ébria ou nutrida me dispo aos olhos de quem quer ver.
Aqui em cima sou deusa, lua, manhã e descer, sou pequena e do tamanho de cada braço que me conter. Aqui em cima dependo de quem me deixar pender. E concretizo o que tiver que ser. Aqui em cima sou grande e do tamanho que tiver que ser. 
Aqui em cima sou eu, poeta, largada, solta, fluída e o que puder ser. 
Aqui em cima... 
Aqui em cima...
A minha colina é plena, os sonhos amplos e o futuro merecedor.
Aqui em cima...
Também eu tenho o meu estigma fundador.

12.5.12

3 3

Encasulado, em restauro, compondo as falhas e quebras, sem cuspe, esperma cola ou fluído doce para colar. Porque assim o desejo, porque o quero, para a adivinhação que antes de procurar já sabia que iria calhar, num hexagrama tão perfeito em capicua. Retirar.
Não por ti, não por outro, nem sequer por aquele que me iria salvar o coração, por mim, sossego. Sem negar o que vivi, sem dar o corpo ao mundo, o que nunca fez mal, mas não é agora a hora. Agora é tempo de madrugada, silêncio, de orvalho meiguinho e todos os bichos que respeito. É hora das fronteiras permitidas, de delimitar os caminhos, de verde clarinho e luz mansa. É a hora onde o coração hiberna numa primavera de sono levezinho e as mãos e a cabeça acordam para outros destinos. Onde só escolho profecias minhas e deixo os dias inundados por risos de crianças onde desperta todo o mimo, dias de cumplicidades perdidas e conversas boas ao entardecer, de silêncios longos e musica baixinha.
Dias tranquilos por escolha minha, onde num mutismo pertinente se redefinem os desejos sem que pense nisso. O corpo a despertar num respiro, entregue a todo o monte que rodeia ao mesmo tempo só seu em amor surdo. Tardes onde os abraços são longos mas raros e nas melodias sem letra se constrói novo espaço para um corpo que ao deixar de ser, existe. 
E respiro no mantra tranquila que não enuncio, respiro, é... tranquila sem procura, cada dia a ver-me bonita, corajosa, inteira, honesta. De sorriso por não precisar que ninguém mo diga. 
De sorriso porque sou parte da cor e do sossego onde estou, porque estou cada dia mais onde meus pés se encontram, porque me visitam abelhas, me protegem aranhas, me iluminam no meio da noite besouros. E não sei se falta muito para a pele se tornar da cor do que escrevo, e o coração quebrado, ficar verde e reflorestado em todo este mundo, mas vejo as linhas que a contornam cada vez mais vivas, na medida certa de saturação, e o peito entretido a semear sopas de letras com uma criança. Cabeça sementeira quando a levo pela mão e a boca, boca de gente, quer comida, luz, sol, pouca voz.
E de baba fininha e muitas palavras na cabeça, abandonada a mim mesma e certa do que, mais tarde, quero, ainda sem saber se do casulo sairá borboleta, gazela ou lince ou loba, sendo apenas grande e ibérico, pertença de quem vem do povo de atrás dos montes.

19.4.12

Apesar deles...

Hoje durmo triste... só hoje. Durmo triste porque aqueles que estão em funções para nos protegerem transformaram-se em vândalos que atiram mesas e cadeiras pelas janelas, que destroem computadores e material didáctico; aqueles que deviam salvar vidas encobrem a cara com capuz e sem fardas, arrancam cartazes e emparedam portas e janelas. Como numa distopia conhecida, só queimar livros ainda não o fizeram, mas foi o mesmo, porque hoje uns quantos, de uma biblioteca, foram para o lixo.
Hoje (e nos últimos meses), manifestante parecia uma palavra feia nas notícias, assim como anarquista e ocupa, e em vez de admiração era suposto ter-se medo. Hoje fechou-se uma escola, tentou-se matar uma ideia, bateram em gente que lutava por dias melhores num país onde tudo está tão triste que quem ainda tem força é de louvar. Num país onde dizem à massa critica para emigrar e assim os obrigam, caso queiram sobreviver, onde parece que sair para as ruas é cada vez mais criminoso, assim como ajudarmos os que nos estão próximos e darmos o tempo que temos a melhorar o lugar onde vivemos.
Hoje perdeu-se o bom senso e só se lembraram leis que não são de homens, mas de carteiras. Hoje houve quem demonstrasse abusivamente o poder e quem perdesse a cabeça ao obedecer a ordens sem pensar. Houve quem destruísse bicicletas, quem esmagasse computadores, com medo do que uma mudança boa pode fazer, com medo que solidariedade se tornasse um vírus e contaminasse com tanto coração mais vidas e mais bairros.
Hoje houve violência sobre população, e os criminosos foram os agentes da lei.
Hoje durmo triste... mas amanhã...
Amanhã volta a nascer um sorriso, porque a ideia se espalhou, porque também foram muitos os que ficaram tristes comigo, e porque por aqui, a resistir a quem nos quer por fora deste país, somos cada vez mais os indignados.
Amanhã acordo feliz, porque sei que os nossos pais nos ensinaram o que foi Abril, e o que devia ter perdurado, e que por muito que estes senhores queiram, por que destruam, fechem e batam, há cada dia mais bocas que não vão conseguir calar...
e apesar deles, da força bruta e de toda a repressão....
AMANHÃ VAI SER OUTRO DIA!

28.3.12

Tudo o que queria dizer

é que já são demasiadas as noites sozinhas. E que reconheço quem me faz, em vezes benzinho, e num gemido fininho, miar de gato pequeno para que ninguém ouça, embelezo demasiado quem pouco fez.
Que já devia saber que o sal e o sémen da mesma vez anunciam o fim de algo que nunca foi significado. E que me iludo com fugas, a justificar a insistência, a pensar que é medo, sabendo no íntimo que o que é, é, negando para bem de mim esse desinteresse descuidado.
O que ponho em cima da mesa talvez queira que pareça tremendo e mal-fadado, ou se, por bom que seja, traga portadora culpada, mas chega, parou desta ilusão que aguenta a vida, deste orgulho pequenino que comporta bem toda a recusa. O não não é das promessas é do que lhes é na verdade dado. O presente é recusado. E em pontos finais bastou a ilusão. O silêncio dos visados deveria chegar para saber que o fito não lhes chega ao coração. Ninguém se segura por mim. Nem o outro sentiu o que quero, espero que sinta.
Nesta terra que abandono, abandono e sinto... aqui já não há quem me pegue.
A passo largo, fujo, sigo, ando, para outro lado.

2.3.12

O que não disse

Contei-te do corpo livre, não te contei do coração de poeta. Nem de que cada homem que possuo, demente, de mente limpa e recta, fica um pouco de coração e o desejo que não termine, não. Absurdo, guardo ainda os lençóis, sem medo de repetir com outro, compartido o espaço que noutros dias vivo sacro, e de manhã quedo me mais um pouco na preguiça que renomeaste. Não te diria que fecho e inspiro num mergulho azul cada momento mais breve, nem que espero que passes. Não recrimino o tempo estendido que passaste, nem me causa estranheza a intimidade que partilhaste, apenas o que estás habituado, com corpo fora de hábito. E vejo-me entre a tua cara cansada e o teu corpo de menino, de mãos no ombro moreno e traçado, lançado, perdido, sem me chegares e todo em mim no mesmo instante. E o absoluto e valor perfeito que é não te ter nunca mais, integro a cada momento, com um repreensível desejo de te repetir, de te sentir meigo e profundo em mim, em cada avanço tão cheio quanto de tantas formas te tive em mim.
Foi muito em pouco tempo.
E mais queria, por que em que tempo fosse seria sempre um tanto de amor e outro tanto de tesão.

22.2.12

de coração aberto,

dando o que posso, dizem os sábios, recebo a dobrar. E que razão! Assim de mãos em sangue de o portar, de peito rasgado e entranhas à vista, desdobrando o que eu sou em pano raso, em lenço de céu, a cada passo preparada para voar, para dar e transportar os outros no meu sonho. E olhos rasos também, de lágrimas de tanto amor que recebo, de todo o carinho amparo, de saber que nunca chega a queda, porque os braços são muitos para apegar. E nesse apego todo pronta a cada tempo para a partida. Coração balancé de tanto espaço tem o peito e tanta criança adulto nele a brincar. Coração em quartos, coração hotel, casa de repasto, cheia de famílias e pronto a refastelar. Coração sofá, transporte público de passe gratuito e vitalício, com lugar de prioridade para os meus velhos e para os grandes que disfarçam já não ser crianças de colo. Coração sem borboleta, de portas grandes e pintadas a mil mãos, coração de festa, coração grande salão. E quando falo com um a dizer que por ele também me poderia apaixonar, e pelo outro também, havendo só o espaço e luz entrevista do que se poderia receber e dar, percebo a resposta que me falta calar. Coração poeta, de tantos musos e estrelas, de tantas danças e paradas, de tanto querer e amar, de tão diferentes formas, diversas histórias, de contos, fábulas e documentais.  Um compêndio de mitologia, este coração artista, tem tritões, reis, meninos, bandidos e fantasias. E recebe, das mais amplas formas, tudo a dobrar.

17.2.12

Diz que é ali que vamos todos ver os monstros

Primeiro a bonança... e um dia bom, cheio de sol, com corações sedentos e bocas sedentas, dia de vinho branco, cor de luz e rio amarezado. Depois as noticias, seguidas de tudo o que se pode fazer- braços de polvo a chegar onde é preciso, ginástica de fala e esforço tremido, onde rolam apenas duas lágrimas. Uma apneia de contenção, um sentir manso a conter a dor bruta até mais não. Aguenta-se o segundo falado, o primeiro prático, o terceiro confessado. E vem, de repente, a menina, agora maior mas com os mesmos medos, o retorno de perder o retomado, a segunda volta triste de um disco tão parecido. Ocorre-te. Perder pela segunda vez, ela primeiro, tu, depois, claro. E a procura da cura, a tua, que a outra não controlas, sentir apenas o corpo. Desta vez, só, desta vez, mais uma, de novo, foder, não falar. Não há nada para resolver, mais que o programado não o podes fazer. Procura então o remédio, o teu, o alívio rápido da dor, a panaceia mais eficaz, mergulhar no corpo do outro até esqueceres a tua cabeça. No fundo, a pergunta de sempre, se tudo piorar o que vais fazer? Contra que parede te vais atirar para não doer, assim tanto, outra vez. O mal de muitos pais, ser perdedora. Todos os medos, num só, o de perder outra vez, menina, mulher, que mais se pode fazer. Curiosa de saber porque nunca aparece este remédio, porque nunca nestas noites te afundas um pouco mais e o quê no destino te protege de ti mesma. E saber que é só o impacto de não ter oração, de ter esperança, braços e força, mas ainda não saber a reza certa para te curar a ti, curando o outro antes. Agarrada às palavras, memorizas um mantra desta vez real, vai correr tudo bem.

16.2.12

Rapaz

Rapaz, vejo-te bonito. A cada dia, vejo-te bem. E assim me contenho para que não derreta, sei que a nada leva, nos meus olhos devo deixar escapar essa ternura de que revestes... fico mel por dentro, doce, embalada na tua voz tão bruta, pendurada na linha direita do teu nariz, perdida na barba densa, no sorriso, sorriso tão bonito. E assim fica decorado o castanho dos teus olhos, o teu gosto por pequenos almoços na cama e noites de pés felpudos e pernas quentes e enroscadinhas, a liberdade de gestos criado o espaço de amar. E enquanto adivinho os braços fortes escondidos nas malhas e ouço tudo o que é simples, adornado, enroucado, enriquecido no teu discurso, e quero me horas a falar, beijar e foder. A usar todos os termos e todas as práticas, assim sempre de mansinho. E foges-me com ressalva de rapaz de província, com desvios de conversa sempre de uma delicadeza extrema, engano-me que me dás mais caça, que um dia te apanho, porque, rapaz, mais um dia em que te vejo bonito, hoje mais um dia. E sem te encostar, espero mais um pouco pelo convite, e pelo dia passado entre o sol e onde a luz não entra, com cheiro a lareira, sem haver chama, só com o fogo brasa de nos querermos. Vejo-nos sempre assim, meiguinhos. E a ti, a cada dia te vejo bonito.

9.2.12

um mosqueteiro do amor

Lido o poema de um estranho, com o olhar nele pousado, desejar por um beijo, por momentos, a palavra em mim tão bem alinhada. E cada verso, ai,  um suspiro, um tremor, um bocejo de prazer, ser eu sua colina, ser corpo fecundo, ser eu o seu poema desejado. E perceber que, ai, este coração, deseja tanto o amor quanto ser amado. E que olhos tão doces e voz tão meiga, que mãos de menino e ar de amante, que partida tão súbita, que encontro breve, que esperança tão tola, que espera tão curta.
E no dia que vem, ao sol, trocar poemas e olhares demorados, como se o destino, de acaso composto, nos deixasse, a ambos, mais um dia juntado. Ai, este coração, deseja tanto o amor quanto ser o amado.

4.2.12

o vestido preto

Os dias maus começam sonhados por ti. E continuo sem perceber como algo tão fugaz me deixou tão gado tresmalhado, deixado por ti para trás. Os lutos não vêm e nunca anuncias dias auspiciosos, embora venhas com o sol. Mas és sol em pedra, mudo, e sem o som da tua voz não há pedaços de terra nem flores. Se o que sinto assinala, estou reclusa de mim mesma, se nada é, porém, quero me viúva, de tão negro me pões o coração. E os olhos escondidos atrás do sorriso, o gazeado negro que me cobre as vistas, não me priva da beleza, nem dos dias, mas quero me só, de cama para mim, presa ao minuto em que vens, tu que nunca te anuncias.
Anuncias apenas os dias maus. E num arauto de mim mesma, fico tão longe de mim como dos braços que nunca tive e prometo abandonar as secretas disposições e todas as teologias perdidas, as que pensei por ti e só por ti seguiria. Sedenta do teu beijo, sonho-o como o mais perfeito que seria e ponho o negro, para esquecer, ou lembrar, que nunca o tive nem nunca vou ter.

28.1.12

um dos privilégios de ser livre

De corpo aberto e boca molhada, a encontrar outros sagrados, em beijo espontâneo ao que a vida nos dá. E pelo meio a bênção de príncipes em crescimento, perdidos num encontro que não se sabe bem quando será, e um trilho de corações a preparar a chegada. Menti, na caixa não estava uma ovelha, estava um pouco do meu coração... tão solto quanto os braços arremessando meio mundo e mundo e meio, tão completo quanto a pele que sente todas as mãos numa só, tão tonto quanto um coração externalizado num peito, tão aceite quanto a busca da montada, certa e dura, enquanto rio do já expectável.
Para um dia me seguires... para um dia também me enlaçares.

Porque o amor também espreita numa rua e se escreve em canos e painéis, usa preto, vermelho e azul e deixa rasto nas mãos e na pedra.

26.1.12

o sagrado coração (revelado e fugido)

Cada passo tem a sua cura, cada tempo o seu choro e hoje de faca espetada no sagrado, a fuga. 
Estranho reconhecer este caminho e a forma como com cada lágrima vieste tu e o outro, ambos pela ausência, pela distância, o meu alfabeto de mágoa. E vê-la a subir de repente, a secar o rosto com um beijo, a subir de tom, tomar em cima tudo o que me pertence. A loba, tremenda, assustadora, a loba que tudo quer e tudo joga, sem ficar com nada de ninguém, que trepa para cima e faz do corpo mais forte tripas sem coração, gula e comida, no mesmo gesto que com a mão o cala e o deita ao chão. E é essa a protecção, a batalha, o rugido, do ventre quando às portas do tal sagrado coração. Percebo porquê o lugar, que bem mapeado ficou no corpo, a boca fala estômago, dele o punho e a mão. E deixa os dentes profanar, o corpo solto, rejeitar o braço, a ternura e a perca. Esses só na mão, na língua, no cheiro, no riso rosnado, nada de sagrado, nem coração. E deixá-lo menino, reconhecido, assustado o varão, com medo pequenino, confessado ao coração, ir buscar o ouvido, parar o jogo porque as regras foram explicadas e se fechou o portão. Tudo no momento, depois o nada e o nunca mais. Tudo, o absoluto, incompleto o corpo, desterrado o coração.
A conclusão foi uma, em braços de homem não chora o coração. 

Ainda não.

25.1.12

coração seringueiro

Até a mim me espanta a certeza com que digo parta-se o meu antes dos outros, com que abandono ao caminho tudo o que sei que é devido e tranquila vejo as veredas cada vez mais altas e os sonhos trôpegos. Pareço saber que tudo o resto é de vidro e que eu, a tudo entregue, tudo resisto. Espantam-me os delírios, as febres poucas e este sol de inverno estéril, sabendo uma primavera breve, fora de estação, a crescer neste pousio, terra mole, revolta que é o meu coração. E sei que espero com a certeza de não acontecer para breve, de ser tenra e doce como um fruto de verão, de passar novembro, todas as metas e promessas ou não. E num passo, um chiado fininho, o medo do espaço medido e do encontro que traia tudo em mim de tão bonito. Ainda temo ver o passado de tão estranho que se me tornou, tremo, tonta, entregue, o buraco, o falhado, a prova do que não sou.
É um tempo sem vento este, que me faz querer chuva e emoção, que me põe entre a comida e o prazer, dando-me um pouco de tudo, mas nunca o suficiente para satisfazer. Um tédio disciplinar, no meio do acordar, sorrir e deitar. E abandonada às muitas aventuras, sempre presente este espaço coberto, coração, braços, peito balofo, onde os outros balançam sem risco porque deixo todo o dia que o risco seja só meu. Não me assusta, nem faz temer, a tempestade do meu sangue precisa de muito mais para ser.
E de borracha, grande ou marinheiro, é meu, completo e velejador. Em ordem vaga ou caos horário, calmo, displicente, ensinado, sem autoridade, nem lei, nem mar revolto a navegar.

19.1.12

não (porque também assim é)

Depois há estes dias... dias em que me sinto cansada, rota, espremida, dias em que se abro as mãos é por rendida, numa desistência tão só passiva. Dias em que o corpo range, seco, e os espelho grita. em que o ventre carente clama por outro, o de ontem, o de amanhã, o que não veio, nem se quer e o corpo fica mal vestido, em que nada lhe serve, e pouco a própria carne. Transvestido numa dor de saudade, de ausência. Onde a nostalgia tem lugar, as dúvidas crescem e se deseja ou o que já não lhe cabe bem ou o que não teve, nem esquece. Dias perdidos, sem vento, só tédio, onde tudo é feito, mas nada cumprido com um sorriso. Dias lugares, praças de pedra e sombra, dias vaguear sem sair do sítio. Depois... há esses dias, que fazem três mas já não se justificam, que levam a alma para o que passou e escondem o coração. Dias de pele grossa mas pedinte, de mantos sem promessas e de quartos que se querem vazios, dias em que não, nada, sem crença, nem perdão, nem se sabe quando passa e quanto se tem que passar. Dias de só em audiência, de próprio julgamento e de juiz compaixão tremida, sem lágrimas, sem sentimentos. Dias em que nada passa e tudo é devagar, em que sou só assistência. Dias em que não há no que acreditar.
Depois há esses dias... cansada. Quieta pelo dia seguinte. Com mãos mornas e pêlo frio, revestida a reptil e perdida pelo não conseguido, pelo direito que ainda não foi oferecido. Dias mágoa, disfarçada, calada, de uma só lágrima pelo canto caída, no lado de quem não vê.
Dias quieta... há espera do outro dia.

12.1.12

Ainda bem que ninguém me ensinou a desamar

Primeiro quis-te fervorosamente em mim, conservar todo o amor, mesmo suspeitando impossível que seria ter-te sem premissa, sem colaboração. Houve momentos em que espalhava aos ventos esse amor tão aplacável, tão brando e grande como o mundo todo quereria. Momentos em que me julgava maior. Houve dias em que me deixei pequenina, à espera da tua resposta perdão que não vinha. Outros em que chorei por te sentir a fugir do meu coração, por pensar que era rejeição birra por não teres tudo o que querias e não ver que era tudo... maior. Ouve... fui crítica, vi todos os defeitos, podres e horrores por não me quereres falar. Olhei para o feio e a dizer que o fazia, não estava a saber perdoar. E por não ver mal que te fiz, empederni, tornei-me imperdoável, arrogante sem dar conta. Já não digo que não te fiz mal, nem procuro essa raiz a rever os passos atenta a tudo o que fiz. TU o hás-de saber, e quererás dizer-mo ou não, e hei-de-te ouvir, rir e sofrer, ou talvez nunca se fale mais, com tantos atalhos diferentes, com os baraços e desembaraços que diferentes vidas dão. Continuo a ter pena de te ter feito sofrer, mas não tenho culpas e o tempo passa sem as saber, ou querer. São formas tão diferentes e as conversas têm os seus tempos.
Toda a tua recusa e rejeição parou de doer e nesses tempos pensei que tinhas saído do meu coração, não sei se fugido tu ou expulso por mim, descido para as entranhas, pronto a uma ultima transformação, e em rima de criança, de escárnio suave no meio de um riso tremendo, todo tu, completo, saído, sem esforço, bem digerido, fora de mim.  
Depois sonhei-te, e o sonho não foste só tu, mas foste um momento. E vi-te numa casa grande, no meio de tantos nossos amigos, sentadinho no chão, com uma ela que não sei quem é perto de ti (houve tempos em que também suspeitei que isso iria doer, se me anegrar sei que é ego, infantil, por um sentimento de posse e orgulho ferido que nem me pertence nem é de mim). Ajoelhei-me perto de vocês, a conversa era boa, leve casual, permeada de risos baixinhos e delicadezas (relembro como isso é tão teu e tão bom, agora depois de o sonhar). Nada pesado e os limites que sentia também não incomodavam, a intimidade era outra, cúmplice mas distante, indicando que nada havia sido conversado (e descanso agora, o tempo dirá se é necessária ou não). E depois vem o bonito, olho para o pavimento de madeira clara enquanto converso e vejo. E vejo, os pés emeiados, o teu, o dela, e uma festinha meio entrelaçado tão lindo quanto prometedor. Não digo nada, e por dentro sorrio, sorrio muito. Um sorriso, este sim MAIOR. 
Foste o meu primeiro grande amor. E eu fui um teu, grande e bonito também. Espero que encontres outro e que o honres, com um tamanho assim MAIOR. Sei agora com certeza que só te quero o Bem. Sem mais nada determinar.
E o tempo há-de fazer com que haja bons encontros... ou não. Já não é importante, e quando foi estava enganada, porque o importante é o sentir.
Ambos mereceremos e saberemos ser felizes, 

c.

8.1.12

o passeio imperativo

Em que canto da prateleira arrumo a lasca de coração que sumiu, sem saber se foi ego ou paixão? Como simbolizo, manifesto, em que objecto, o beijo que afinal não aconteceu? A rua em tarde alta, o pedido tolo e encantador, o espanto e o medo com todo o meu dispor... 
Os patetinhas conquistam sempre um sorriso promissor. E um encosto... que delícia, que prometia bem a jeito uma rebolada e algum terror. Diz-me que comigo fica um cão... diz-me que ...ai...contigo... que impressão... tenho que fazer boa figura. Explico...não sou mestre, nem professor. A vontade fica. Fica também a forma como me chamou bonita. 
Encantador...
Como se pune um crime de amnésia... e depois do torpor, quem tem culpa, o ofendido ou o ofensor?

26.12.11

o segredo de i

Corpo de rainha em porte de menina, um sorriso entre a calma e a poesia. Sorriso terra e maresia, traz no alforge os ladrares do monte e a areia pintada da vista. No silêncio, escondido, a altivez pretendida, branda, benigna, terna e, sim, ligeiramente ferida. Fina, doce, mansa, nunca afiada. E o que debanda escondido é um pouquinho de medo de não ser tão amada. Nos braços, ferramentas, tesouros nos por dentros, entre véus, camadas e roupas de caminhadas. Tanto dado, pouco entendido. E a reserva dos ensinos, quieta, E menina, e calada... assim, de fugida, não magoa. Já sabe, o dado não é garantido, por isso nem tudo é assim jogado e quando o outro perde a prenda, desmerecido e amado. Protegida, num silêncio reservado. Um olhar atento, esperto, franco, uma mente tão alada. As mãos que tudo fazem, escondem também o reinado. Tudo dito com cuidado, tudo puro e bem pensado... e essas mãos, menina, porque escondem o reinado? E no entrever do sorriso, no "gosto de ti" sussurrado a força, não de menina, mas de mulher proclamada. E essas mãos que tanto fazem, porque escondem, rainha, porquê de menina tanto cuidado?

* a tua prenda está feita, a minha está guardada. recebo-a no dia em que reclamares o que teu por direito é. felicidade.

16.12.11

o que não é um texto, foi um sonho


Só 2 personagens ( e a presença da minha mãe - pensava várias vezes como lhe ia explicar, mas estava tranquila)-
eu sempre tranquila e feliz. e esta moça, sim esta.
a tatuar.
me.
3 tatuagens.
as historias das três misturam-se. explico uma por uma.
a primeira,
na mão, mão toda...
um diagrama, filigrana azul turquesa, clarinho, clarinho.
Não consigo perceber se na palma da mão, se nas costas da mesma. era o lado onde agora tenho o sagrado coração.
Lembras-te com pormenores?
 
escrito, entrelaçado no diagrama, a letra fininha, bonita de mão, um poema. sim, tudo.
todos os detalhes.
 
Lembras-te do poema?
 
Sigo com essa primeira tatuagem, mas mal lavo volto atrás.Reparo que o poema acabava com uma frase que não podia ali estar.
 
aiaiaiai
? porquê?
a frase ou tu?
 
Insisto com a moça para que a cubra, risque essa ultima frase. o poema era da de amor, lindo, lindo. mas não podia ter aquela ultima frase. insiste. tinha que ser o poema completo.
 
era o quê, a frase?
 
eu digo não. não tem. risca, cobre com tinta a frase.
 
"be mine"
 
tu?
eu tranquila
 
precisas?
eu não
queres que continue?
tu nem sequer és de ser de ninguém
ou coisa nenhuma
o máximo és tua
sim
 
mas a frase quando a pensava não  era a mim.
lembro-me perfeitamente disso.
 
então?
era no teu braço?
pulso
lembro de pensar se houver um amor, nas minhas conquistas, não existe isso
era no meu pulso,
na mão,
acho que era nas costas da mão o poema
e na palma continuava o filigrana, sei que era na mão toda, não sei que lado escrito.
dedos, tudo,
e pensava que não, aquela frase não cabia na minha forma de amar. não havia esse pedido de "be mine" em mim.
queres saber da segunda?
esse "be mine" pode ser de ti para ti, não?
mas não era.
e foi essa a frase que fui cobrir, riscar
se calhar não precisavas de cobrir se lhe desses outra
intenção
 
o poema era lindo, muito cândido, em inglês, como aquelas rimas docinhas do roses are red violets are blue angels in heaven know i love you
epá eu não escolhi sonhar isto
sonhei assim

ehehe
e o bonito é q estava feliz
e gostaste, aposto
mmm... sorrio
mas a segunda tatuagem ainda foi mais fora.
diz,
era uma pulseirinha no tornozelo. super colorida mas também clarinha. sendo supostas relembrar o meu crescimento nas adolescências. as influências electrónicas ( a verdade é que nada correspondia ao que foi no real o meu imaginário)
:)
tinha um mini cogumelo do super mário, um mini pac-manzinho com a sua pastilhinha, um mini supermáriozinho e mais um ou dois, repetia essa padrãozinho inocente e tão me distante ao longo do tornozelo.
mais uma vez chego a casa lavo. e do tornozelo passa para ambos os pés. para o peito de ambos os pés.
!e tinha em vez de um desenho,
os pés cobertos de azul fortão,
quase turquesa, quase como se uma trincha me tivesse passado os pés,
e em cicatriz, fininha, branquinha, muito, muito afiadinha, em letras maiúsculas e grandes:
AMA RELO
AMARELO
ESCRITO DE UM PÉ PARA OUTRO!
em cima de azul forte, lindo, alentejano.
 
Tenho a sensação que havia mais tatuagens, mas so me consigo lembrar de mais uma.
e essa fiquei satisfeita sem retoques.
era uma linha fina, negra, como se de meia fosse meia. de onde o tornozelo acaba, até ao principio do interior do joelho... aí esbatia... acabava. bonita. e acaba o que me lembro do sonho.
 
o azul era quase assim.
 

uma barragem de desejo

e enquanto vivo o jorro contínuo. cada centelha a pulsar, cada microcosmos de mim. Aviões estrelas num sopro, a água que bate nas mãos, o fumo de cada conversa e um sorriso, franco, com passagens abertas, sem guardas nem fronteiras, sem empecilhos, fluido, imbecil, tolo jogado, impossível de conter.  um passo que estou viva, um passo que é delícia. uma dança por mim. a música que invade cada espaço vazio, cada bosão por reconhecer, cada vácuo que é cheio. um vento que transporta as dores e os alívios, tudo misturado num êxtase tão meu, tão nosso. isto é vida, cada grito, pulsa, pulsa, cada respiração. respiro. e todos os dedos se tocam. todos lábios sopram na mesma existência. uma a uma, mil, tantas, uma partícula. que partitura tão bonita, que parto tão lento. um passo. o pé que encosta à pedra, a pedra há, à vida. que contínuo tão bonito. que pulsar tão infinito. que bem que a empatia me traz.

12.12.11

carinhoso

Nas tuas imagens vejo sombras de mulheres sempre que não eu. Eu sei que são casas, mas sei que em ti está essa história que me exclui. Apenas as sombras das que não eu. Eu sei que são bairros, armazéns, mas entre a luz e a sombra desenham-se as caras e perfis das mais perfeitas que em ti estão. Que desejo tão raro de estar nessa lista emocional, nesse catálogo apurado de raras, nessa novela séria de casos bem comportados, onde o meu desatino, desafio, desafino, nunca escorreria bem. Onde seria sempre mais estranha que bela. A nossa paixão, que apenas eu senti, foi uma lágrima de canto, contigo pestana sempre a conter a água que sou eu, que sentia tanto. Tenho pena de não te ter pertencido tendo sido tão tua. E de depois de tudo arrumado, te continuar a ser estranha, rara, distante, externa em vez de entranha. Confio nos traços da vida, nos desígnios e predicados, mas o chorinho de não se ter cumprido ainda me acompanha, um ribeiro fininho, afiadinho de e se fosse, um nadinha de esperança que não vem, porque nunca precisaste de abrir as mãos do que não querias. Não me retiveste, não me quiseste, nada meu. Nem os beijos quentes, nem o corpo torrente, nem o aperto de mão, nem o abraço transformador e mais triste... não foi por fuga... foi por não ser importante.

bate... e não te vê.

11.12.11

luas novas

Primeiro o frémito... o poder que me invade o baixo ventre, sacode-me o corpo, enche-me dessa força, sequiosa, bruta, sedenta... poderosa. A barriga cheia, o sorriso largo, tudo o que me pertence se cumpriu. Aos poucos, abro as mãos. Abrir as mãos, largar, soltar... saltar de coração. Acima do corpo. Entre a mente e os afectos, entre a tesão e os anseios. De barriga cheia, fêmea, de lua ao alto e campina aberta. E entende-se, integra-se, mais que cadela, loba, mais que matilha, alcateia. E toda a calma que uma cuidadora têm. Corre-se de mirada o terreno de caça, limpam-se as esteiras, ordenam-se as crias, lambem-se as feridas, as tuas e as dos outros. E a cada passo alfa, mais um pouco de sossego. A cada campanha, mais espaço para ti, o espaço cada dia mais limpo para te cumprires. Em alcateia. Com espaço. As patas a ficarem largas, cada rosnar mais assertivo, e estes meses que são anos por te estares a aprender a servir. Ao serviço de ti, em serviço do que te tornas. Fluido e controlado. Porque a floresta é tudo menos caos e no teu corpo e desejos impera a ordem de ti. Impera uma harmonia. A harmonia de uma clareira, a criar espaço com um sorriso, de mãos ao alto e corpo em trânsito, de cabeça fixa. Pronta para cada campanha, ágil em cada caçada, cumpridora de cada missão, sempre primeiro imposta por ti.
Cada salto, coração, cada conquista coração, cada caçada, estômago e barriga. Impera a mente. Impera a harmonia.
Uma loba é um corpo completo. E as luas acordam a que eu não reconhecia.

28.11.11

epifania de uma noite

Aquele corpo tem o tamanho do mundo.

Aquele corpo cheira a mar e tem nos recantos sabor a sal de tanta onda que por ele passou. Aquele corpo deve demorar anos, meses a percorrer, da cor das cordilheiras e dos planaltos longos, com linhas direitas e geometria fluida, com braços longos e força para me encher. Aquele corpo é estranho, assustador. E tenta-me. É meigo e bruto num só aperto, e tanto corpo, de uma leveza só. Aquele corpo é terno, fugidio e entregue, exposto e misterioso, cheio de segredos e metros a discorrer. Tem voz densa e porte rouco, tem mãos, tem pés, tem cabeça. É estranho e assustador. E tenta-me.
Aquele corpo pensa, tem reserva, tem carinho, tem amor. E cheira-me livre, relaxado, entregue às mesmas vias que eu, e eu quero-me entregue ali, em cada mão eu toda, corrida, querida, tentada, encostada, uma e outra vez. A ir e voltar quando eu quiser, a ser marés. Aquele corpo é desejo e desconhecido, é espontâneo e contido e tão grande que só pode ter muito que se lhe diga.
E desejo-o generoso, amplo e aberto, desejo-o curioso, assim como estou de saber como ama de corpo, de abraço, livre, solto, um gigante a um pássaro.

23.11.11

Não alimento egos,


nem para isso quero servir. Sacio corpos e faço regadios de corações. 
A estrada que segui foi vermelho alma e quando a casa caiu a parada foi outra, as cores sempre lá estiveram e  a sépia só tenho as tristezas do que não vivi. No caminho, encontros e barrelas, acompanhantes, mas nunca de toda a viagem. Fui do c ao z com a analepse pedida. Um sem coragem, o outro sem cabeça e o primeiro sem coração. Sem saber ao certo, e em suspeita, se cada um é três ou se há três neles e nos outros tantos. As fadas, amigas, pouco madrinhas, e tão caminhantes quanto eu, só não disseram o que não saberia ouvir, ou talvez no meu caminho fui reencontrando a audição. As bruxas, os medos que espantei do coração. E a estrada, longa e sempre em mim. Descobri, andei, pulei cercas e nem sempre segui os tijolos propostos. O campo de papoilas é só uma, a mais formosa e acordou mundos, ventres, e uma ternura impensável e imensa, nos meus braços a adormecer de manso.
E as buscas de feiticeiro, a fraude da procura, porque tudo o que tenho está em mim, e quem não veio deve saber que o não se tem não se encontra.
Sempre fumos e espelhos para nos atemorizar, mulharas e castelos para quem quiser salvar, eu do lado de fora já, atalhos e tuneis para quem sabe o caminho com as mãos, para quem tem em si a salvação. Não brinco a esse jogo, não sou inalcansável, perdida sem ser por crer, crente num herói de... crente num herói que não eu. Não preciso, não desejo, não consinto. E cada vez mais vejo os tons entre o verde esperança e o ver de obsessão, espero que passe a birra do tempo. E sigo, viajante.
Há-de ser sempre assim, no fim que nunca o é, vermelho nos mesmos pés, os sapatos, a cada mil passos, diferentes.

22.11.11

Comprometi-me a voar outra vez... (com as cores do corpo que alguém me deu)





E para voos mais longos, abraço a dor. O capricho reconhecido, a patologia do dar marcada, o voluntarismo, o capitão que perde por só querer mandar, o desejo inacabado sempre na sofreguidão. Mas falta mais, falta a inércia, a rejeição, a mesquinhez ainda não encontrada, a fragilidade escondida nos braços fortes de uma mulher. Abraço a compulsão, os medos que engulo em seco por não querer reconhecer, os choros que não admito, a raiva que só danço, o orgulho escondido num sorriso amplo, as defesas por terra ao ver a primeira flor. Espelho-me, a preguiça, a languidez, a falta de disciplina, a mentira pequenina, o vicio da cama, a boca pronta, o ouvido manso. Toda a pequenez. Estendo os braços e aceito, aceito o que é preciso morrer.
Aceito a dor.
E respiro longo, a cada passo que vou dar, o primeiro em terra, o aço frio, a perfuração, um, dois, três, quatro. Preparo as asas, mais um passo em chão. Outro ainda. Agora, assim, o ar que vem, dentro de mim, em minha volta, suspensa, a tropegar no céu. Quero abrir os olhos, ver de novo o laranja e outras cores, mas deixar que cada lágrima me turve um pouco até chegar ao êxtase. Cada vez um pouco mais. Sempre no limite de mim, pelo menos assim. Puta, casta, frágil e forte, inteira, uma mulher e um rapaz, pausada no espaço, a saber dos braços dos outros, do caminho que tem que fazer, do inevitável e do que está nas mãos. A cumprir-me no firmamento.  A lançar-me, porque cada minuto é mais uma milha de corpo andado, porque cada folha é menos um papel branco para preencher, cada luta mais um cibo de amor.
A aceitar a alegria também, o riso fácil e franco, o desfrute por estar viva, a ternura concedida, os beijos, abraços e amassos, o espaço infinito na cabeça, tão grande quanto o universo do meu coração. As bênçãos todos os dias, os cheiros e suores, a liberdade de mãos, as pernas longas para correr, os dedos ágeis, a barriga cheia. A fé, os sonhos, os desejares de lábio na boca, as ocorrências, o outro, tudo em constante renascer.
Não sabia que um infinito também se desenhava num gancho, e que também se rasgavam as conquistas, quem diria... também são constantes...
O gesto repetido, de punhos, olhos abertos, pés atentos, abrir as mãos. O ser, o dar, o receber, em hélice dupla, numa evolução que é só um apuramento.



Mania de viver.